Promotor Público – PE

Estação Ferroviária de Alagoa de Baixo (1941)

 

Promotor Público no Sertão

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       Em meio a tantos acontecimentos, mais um, de importância pessoal: casei-me com uma prima, Ofélia, seis meses antes de minha formatura. E, formado, continuei a trabalhar, dessa vez no Hospital do Centenário, levado pelas mãos do professor João Alfredo.

         De lá, Agamenon me nomeou para promotor de Alagoa de Baixo, hoje Sertânia, interino – terra de Etelvino Lins, chefe de polícia. Minha filha Moema já era nascida. 

         Costa Porto, meu colega de turma, diretor do Departamento Geral de Assistência às Cooperativas, aconselhou-me que, antes de assumir o cargo, me apresentasse a Etelvino Lins, uma vez que a nomeação de promotor ocorrera à sua revelia – o que poderia, no futuro, trazer-me complicações. Não hesitei. Fui à Secretaria de Segurança à tarde (…)

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       Voltava eu para o sertão, dessa vez como promotor público da comarca de Alagoa de Baixo, a mais de trezentos quilômetros do Recife, “ponta de linha” dos trens da Great Western, às margens do rio Moxotó – rio seco, que só pegava água nos melhores invernos.

          Como representante do Ministério Público, não passaria de uma peça no aparelho judiciário de um Estado que assentava suas bases em estruturas sociais ultrapassadas – o crime nascendo das desigualdades econômicas entre os homens.  

         Alagoa de Baixo situava-se na área mais atingida pelas estiagens, região pobre, sobrevivendo de culturas agrícolas que utilizavam processos primitivos de aproveitamento.  

          Naquela época, vivia-se a fase do caroá, a fibra nordestina que ainda não conquistou mercado pela interferência dos trustes internacionais.  Planta nativa, era encontrada em grandes proporções em Alagoa de Baixo, hoje Sertânia, e municípios vizinhos.  As desfibradoras de caroá se multiplicavam por todos os recantos, dando um certo alento à economia local. 

          Deve-se a Agamenon o estímulo ao aproveitamento dessa fibra, ele mesmo, como Interventor, incentivando o uso de roupas feitas de caroá, com fios tratados pelas máquinas fabricadas no próprio sertão e trazidos para os teares das indústrias têxteis da Capital.  

       Em plena guerra, minha ida para o Interior ocorreu num clima de entusiasmo pela vitória contra o nazi-fascismo, eu acompanhando a marcha do conflito pelo rádio, nas horas em que a corrente elétrica da cidade permitia o seu funcionamento, além das dez da noite, quando a maioria da população começava a se recolher aos lençóis.

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       Como promotor público, o primeiro processo que me chegou às mãos tratava de um caso de furto. Um rapaz, de pouco menos de vinte anos, era acusado de haver roubado alguns alimentos de uma padaria, levando-os para casa. Estribei-me na arguição do “estado de necessidade” e inaugurei minha nova profissão pedindo fosse o réu absolvido.

       Semanas depois, o mesmo rapaz viria a ser novamente preso, dessa vez por arrombamento. Eu havia estreado mal. Salvavam-me, porém, as boas intenções. De minha parte, já se vê…

            Um mês depois, convocou o juiz Ângelo Jordão de Vasconcelos Filho, o Tribunal do Júri. Eu iria funcionar na acusação num processo de homicídio, com meia dúzia de co-autores, pai, esposa e filhos. Carlos Rios, um excelente humanista, banido do Recife pelo “Estado Novo”, residente em Arcoverde, perto de Sertânia, ex-deputado classista pró-Lima Cavalcanti, ótimo jornalista, grande tribuno e adorável figura humana, funcionaria na defesa.

     O crime de que se tratava era horrível: uma família inteira assassinara, sangrando-lhe o pescoço, um desafeto, por questões de terra. O pai usara o punhal, a mãe pegara na bacia para aparar o sangue, dois filhos penduraram o corpo da vítima nos caibros da palhoça e um terceiro fizera a cova para sepultar o cadáver.

       Ao dar início à minha acusação, no dia do julgamento – uma festa para as cidades do Interior, quase um espetáculo igual ao cinema ou ao circo – louvei a democracia, na instituição do tribunal popular do júri. Demorei-me na louvação, de propósito, como crítica indireta ao “Estado Novo”. Carlos Rios vibrou de entusiasmo, glosando as minhas palavras no começo de sua peça de defesa. E assim fomos até o fim do julgamento, numa atuação de equilíbrio, eu acusando os denunciados, ele os defendendo. No término, a condenação de todos, exceto o que cavara a sepultura, um jovem rapaz, para quem eu havia, da tribuna, pedido a absolvição. 

(Fragmentos do Capítulo VII  do livro “O CASO EU CONTO COMO O CASO FOI – Da Coluna Prestes à Queda de Arraes”, de Paulo Cavalcanti – CEPE Editora, Recife, PE, Volume I, 4ª edição, 2008)

 

 

 

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