Parlamentar Estadual

Paulo Cavalcanti, foto da campanha eleitoral de 1950.

 

PRIMEIRAS ATIVIDADES COMO DEPUTADO

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     “Com o propósito de defender, junto à Assembléia Constituinte, as reivindicações do Ministério Público, de cujo órgão de defesa da classe eu fazia parte, como fundador, passei a freqüentar os corredores do Poder Legislativo e as ante-salas da sede do PC, elaborando emendas e as entregando aos deputados comunistas.  Muitas dessas proposições transformaram-se em textos constitucionais, com o apoio da bancada da “Coligação Pernambucana”, o PSD de Agamenon votando contra para preservar as regalias do poder.  Entre as conquistas obtidas com a colaboração imediata dos comunistas, figurava o artigo da Carta segundo o qual o cargo de procurador-geral do Estado  – chefe dos promotores públicos –  somente podia ser preenchido “dentre os membros efetivos do Ministério Público”.  A inamovibilidade relativa dos promotores, que só por representação motivada do procurador-geral, com direito a ampla defesa, podiam ser removidos de sua comarca, ainda assim para outra “de idêntica entrância e igual importância”, foi mais uma vitória da classe, de sua associação, através da bancada do PCB.  

     Aos poucos, ia-me tornando íntimo das rodas dos deputados, sendo ouvido pela bancada comunista em assuntos ligados a direito constitucional e administrativo. 

     Quando se promulgou a Constituição de Pernambuco, dela constou um dispositivo elevando para sessenta e cinco o número de seus integrantes, para ajustar a composição do Poder Legislativo ao último censo populacional, como mandava a lei.  Haveria, então, eleições suplementares para o preenchimento de dez vagas.  Esse pleito coincidiu com as eleições municipais de 26 de outubro de 1947.

     A direção do PCB em Pernambuco organizou as listas de candidatos a deputados estaduais e a vereadores, meu nome sendo incluído, com surpresa minha, na chapa para a Assembléia Legislativa.  Na ocasião de sabê-lo, ponderei a certos líderes do PC  que, na mocidade, havia sido da Ação Integralista Brasileira e que talvez isso pudesse servir de provocação na campanha, prejudicando eleitoralmente o partido.  Além do mais, na minha opinião, outros nomes havia, inclusive na chapa de vereadores, com mais tradição de luta do que eu e com maiores conhecimentos deassuntos políticos. José Leite, dirigente do PC,  poderá confirmar a história.  Outro dirigente com quem falei foi Leivas Otero, deputado estadual. Debalde. A decisão sobre candidatos resultara de uma reunião especial do Comitê Estadual em que todos aqueles aspectos do problema haviam sido considerados. Não era mais tempo de reexaminá-los, alegavam. 

     Assim cheguei à campanha eleitoral, ao lado de Nelson Higino da Luz Monteiro e Cassimiro Pereira da Silva, este bandeado para as fileiras da polícia, pouco tempo depois.   

     Licenciado do Ministério Público, percorri o interior do Estado, ora em companhia de deputados estaduais do PC, ora de deputados federais, como Gregório Bezerra e Alcedo Coutinho. 

     Fui o candidato mais votado em Olinda e Goiana, minha antiga comarca.

     Na apuração final dos sufrágios, fiquei porém na primeira suplência, elegendo-se somente Nelson Higino, com pouco mais votos do que eu, vindo os seus de todos os municípios em que os comunistas estavam organizados.  Nelson Higino fora o candidato preferencial do… PC, na legenda do PSD. 

     O Partido Socialista Brasileiro, diretório de Pernambuco, fez-me seu candidato, trazendo-me um apoio inestimável no seio da intelectualidade. Um manifesto subscrito por dezenas de professores da Faculdade de Medicina e de Direito recomendava ao eleitorado o meu nome. 

     Em Goiana, onde obtive expressiva votação, fui apoiado pelo PSD de Agamenon, em troca de votos dados ou a serem dados pelos comunistas locais ao candidato pessedista à prefeitura.

     A campanha teve seus momentos pitorescos e inesquecíveis. No dia do pleito, no subúrbio de Santo Amaro, os jornais noticiaram que cédulas eleitorais foram vendidas a cinco cruzeiros, com o meu nome.  O eleitor não acreditava na permissibilidade de ele próprio datilografar a sua chapa, à falta da cédula impressa. 

     Num comício de Goiana, a massa que me ouvia cotizou-se e me fez entrega, no final do meeting, de oitocentos cruzeiros, como forma de ajuda. Isso se repetiu em outros locais.  

     Em Nazaré da Mata, terra de Alcedo  Coutinho, cheguei com ele para uma solenidade eleitoral.  Os dirigentes do PC nos receberam com foguetório na “rodagem”, à entrada da cidade.  Conversa vai, conversa vem, e Alcedo perguntou que tal era politicamente, o candidato à prefeitura municipal, cujo nome os comunistas deviam apoiar.  O líder local foi pessimista:

     – É um reacionário fervoroso, companheiro !

     Alcedo estranhou, posto que conhecia o candidato.  E então indagou as razões de tão severo julgamento. 

     Nos padrões da época, a resposta foi simplória :

     – Porque nós já fizemos tudo para ele entrar no Partido Comunista e ele não quer.  

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     Entre os novos deputados eleitos, constava o advogado Barros Barreto, amigo de Barbosa Lima Sobrinho.  Na formação de seu governo, Barbosa o convidou para ocupar a Secretaria de Agricultura. Barros Barreto descendia de família tradicional, ligada historicamente à lavoura da cana-de-açúcar.

     Como primeiro suplente, fui convocado para exercer o mandato exatamente nos momentos em que a polícia política prendia o deputado eleito Nelson Higino da Luz Monteiro, acusando-o de ter participado de uma “reunião comunista” na residência de Demócrito Silveira e outros, no subúrbio da Várzea. 

     Com esse golpe, pretendia-se (primeiro) evitar a posse de um parlamentar comunista logo depois da cassação geral dos mandatos; e (segundo) tentar o impedimento, se não o afastamento definitivo, do presidente da Câmara Municipal do Recife, Demócrito Silveira. “

(Texto transcrito do capítulo VIII, páginas 248 a 250, do livro de memórias políticas “O CASO EU CONTO COMO O CASO FOI – Da Coluna Prestes à queda de Arraes”, de Paulo Cavalcanti / CEPE Editora, Recife, PE, 2008 – Volume I, 4ª edição revista e ampliada).

 

 

 

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