Tempo de ditadura militar – O Golpe de 1964 em Pernambuco

O GOLPE DE 1964 EM PERNAMBUCO

Pela madrugada do dia 1º. de abril, o jornalista Ronildo Maia Leite, do corpo redacional de Última Hora, do Recife, telefonou-me para dizer que havia rebentado um movimento militar em Minas Gerais. Imediatamente liguei o rádio e pude ouvir estações do interior de Minas dando conta de operações de guerra, em linguagem francamente hostil ao governo federal. Logo cedo, comuniquei-me com Pelópidas Silveira e marcamos ir a palácio saber das últimas notícias.  Pelópidas havia passado a noite com Arraes e alguns dos seus auxiliares, tomando pé da situação. O deputado federal Aderbal Jurema, do PSD, ficara em palácio até as três horas da manhã, dizendo-se pronto para resistir ao golpe. Numa camioneta Rural da Prefeitura, dirigimo-nos ao Campo das Princesas, com Aldo e Mauro Lins e Silva, onde se localiza a sede do governo do Estado. Aldo, advogado em São Paulo, e Mauro, médico no Rio, tinham vindo ao Recife para o sepultamento da genitora de ambos.  O edifício encontrava-se repleto de pessoas, com o governador conferenciando com a direção do Conselho Sindical dos Trabalhadores de Pernambuco, CONSINTRA, no segundo pavimento do edifício. A confusão era generalizada, com a escassez de melhores e mais precisas informações. Especulava-se sobre a conduta do general Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, de quem Pelópidas Silveira, recebera, dias antes, solene afirmação de respeito às instituições e de apoio ao governo federal. Por volta das dez horas, as rádios da cidade começaram a transmitir um comunicado oficial subscrito pelo general Justino, em nome do IV Exército, e pelo almirante Augusto Roque Dias Fernandes, do III Distrito Naval, aderindo ao golpe militar. Na véspera, o Almirante Dias Fernandes havia oferecido o seu quartel-general, no bairro portuário do Recife, a Arraes, se este quisesse resistir a qualquer tentativa de deposição. Quem primeiro teve acesso à 2ª Seção do IV Exército, para receber das mãos do coronel Antônio Bandeira a notícia da adesão dos comandados militares do Recife ao movimento golpista, foi Vladimir Maia Calheiros, editor-geral do Jornal do Commercio, elemento de inteira confiança dos militares envolvidos na conspiração. Em reportagem sobre os fatos, publicada no seu jornal, edição de 31 de março de 1968, Vladimir conta que, muito cedo, no dia 1º. de abril, recebeu telefonema do sargento Dominogni, “velho amigo da 2ª Seção do IV Exército”, nestes termos: – Velho, vem aqui depressa que o coronel Bandeira tem um “furo” para você.

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Estranhamente, a nota oficial de adesão ao golpe não trazia a assinatura do brigadeiro Homero Souto de Oliveira, comandante da 2ª Zona Aérea, sediada no Recife. Dizia-se que, às pressas, viajara à Bahia para não colocar-se ao lado dos conspiradores. Logo depois da “revolução” foi para a reserva, o mesmo acontecendo com o almirante Dias Fernandes, que chegou a responder a IPM sobre as propaladas propostas de transferência da sede do governo de Arraes para o seu QG, o que realmente houvera. Na realidade, desde muito tempo a área militar de Pernambuco estava minada de oficiais golpistas, quase todos comandando tropas – para não falar nos que se encontravam em Alagoas e na Paraíba. À medida que, no Rio e em Minas Gerais, o movimento ganhava proporções, contaminando as guarnições de Brasília e São Paulo, os comandantes do Nordeste saíam às ruas com suas tropas, em atitude de rebeldia. O vice-governador Paulo Guerra já vinha de longas e estreitas relações com os chefes militares em oposição a Jango e Miguel Arraes, na preparação conspirativa. O general Justino Alves Bastos confessa, em depoimento prestado ao historiador Hélio Silva, que, no caso do impedimento à força de Arraes, “nossa escolha já se definira pelo vice-governador Paulo Guerra, em ligação conosco desde antes da Revolução”. Quando do lançamento do manifesto dos dois comandantes do Exército e da Marinha, de apoio ao golpe, o tenente-coronel João José Cavalcanti de Albuquerque fora a palácio prender o major Hangho Trench, comandante da Polícia Militar do Estado, comissionado no posto de coronel. Arraes aconselhou Trench a acompanhar o tenente-coronel até a sede do IV Exército, desde que se invocavam ordens do general Justino para justificar a sua detenção. No QG do IV Exército, o major Hangho Trench foi chamado de “comandante” pelo general Justino, que o mandou de volta à Polícia Militar, com a recomendação de que mantivesse a ordem na cidade. Pelas onze horas, a praça do Campo das Princesas estava literalmente tomada de soldados do Exército, dispostos em linha, armados de fuzil, baionetas caladas e metralhadoras. Eram forças do 14º. RI, sob a chefia do coronel João Dutra de Castilho, e do 7º. Regimento de Obuses, comandadas pelo tenente-coronel Ivan Rui Andrade de Oliveira. Chegando a conclusão de que não mais era possível continuar em palácio, muitos de nós saímos, em grupos de dois, ou individualmente, passando por entre soldados armados de fuzis e metralhadoras, que rastejavam pelo chão, como em tempos de guerra. Da sede da prefeitura, avistei uma passeata de estudantes que se deslocava da Escola de Engenharia para o centro da cidade, aos gritos de “abaixo o golpe” e “Viva Miguel Arraes”. Minutos depois ouvimos o matraquear das armas do Exército, ruídos de tiros de fuzis automáticos ressoando pelos lados da Praça da Independência, onde está situado o Diário de Pernambuco. Testemunhas de vista dos fatos afirmam que os soldados se haviam negado a atirar contra os estudantes em passeata, perto da Rua Ubaldo Gomes de Matos, por trás do edifício do IAPI e da SUDENE. O major Hugo Caetano Coelho de Almeida, conhecido na caserna como Hugo Fodão, tomou das mãos de um praça uma arma automática e, ele próprio, atingiu dois jovens estudantes, um nas costas, outro no rosto, matando-os. Esse mesmo oficial, elemento de confiança do general Justino Alves Bastos, acompanhou o comandante do IV Exército quando de sua transferência para o III Exército, no Rio Grande do Sul, e teria sido responsável pelas torturas impostas ao coronel Jefferson Cardim, organizador de um movimento guerrilheiro fracassado, vindo das fronteiras do Uruguai. Do tiroteio, resultaram mortos Jonas de Albuquerque Barros, de 17 anos, e Ivan Rocha Aguiar , de vinte e três, estudantes. No Pronto Socorro, quando um militar tentou incriminar a mãe do estudante Ivan pela responsabilidade moral da morte do filho, teria ela respondido: – Vocês é que o mataram. Tenho mais sete filhos para continuar a luta desta criança. Ao tomar conhecimento da morte dos dois jovens, a União dos Estudantes de Pernambuco, UEP, por seu presidente José Tinoco de Albuquerque, protestou contra a chacina e decretou greve geral. Mas o golpe militar já estava vitorioso. Ao deixar o Palácio do Governo, vi quando lá chegaram, empertigados em seus uniformes de combate, os coronéis João Dutra de Castilho, Rui Vidal de Araújo e Ivan Rui, além do almirante Dias Fernandes, do III Distrito Naval. Arraes e Pelópidas trancaram-se com eles numa sala, à qual deu entrada depois, a convite do governador, o economista Celso Furtado, superintendente da SUDENE. Conta Pelópidas Silveira que, na véspera do golpe, recebera, pelas onze horas da noite, um telefonema de que estaria havendo uma revolta em guarnições do Sul contra o governo federal. Indo a palácio, Pelópidas não obteve nenhuma confirmação dos acontecimentos, embora se soubesse de notícias desencontradas a respeito de um possível levante das tropas do Exército em Minas Gerais, que estariam descendo para o Estado da Guanabara, sob o comando do general Mourão Filho. As ligações telefônicas com Rio e Brasília eram difíceis, no momento. O próprio Arraes ignorava o sentido dos fatos, quanto à sua importância e repercussão. Por volta de uma hora e meia da madrugada, Pelópidas Silveira resolveu telefonar para o general Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, em sua residência, perguntando-lhe o que estaria havendo, ao mesmo tempo que se desculpava por incomodá-lo àquela hora da noite. A resposta do general Justino foi de tranqüilidade, textualmente: – Dr. Pelópidas, realmente rebentou uma revolução em Minas Gerais, mas eu estou firme ao lado do presidente João Goulart, pela manutenção da legalidade. Nesse momento, Pelópidas solicitou do comandante do IV Exército que falasse com o coronel Hangho Trench, que a tudo assistia. Ao comandante da Polícia Militar do governo de Arraes, o general Justino repetiu as informações dadas ao prefeito do Recife, reafirmando sua solidariedade ao governo federal e à legalidade. Fechados no gabinete do governador, o diálogo dos coronéis e do almirante Dias Fernandes com Miguel Arraes foi testemunhado por Pelópidas Silveira e Celso Furtado. Em nome dos militares, falou o almirante Dias Fernandes, para comunicar ao governador de Pernambuco que as Forças Armadas, unidas, haviam deliberado desfechar uma revolução contra o governo federal, para pôr fim à “baderna reinante no País”. E que, com essas forças, estava solidário o III Distrito Naval, por ele, Dias Fernandes, comandado. Em seguida às poucas palavras de explicação do golpe em marcha, o almirante deixou claro que era intenção das Forças Armadas respeitar as prerrogativas de Arraes, como governador do Estado, sugerindo-lhe que viajasse ao Rio imediatamente para parlamentar com João Goulart, a essa altura ainda presidente da República. Enquanto isso – acrescentou o almirante – “a Polícia Militar ficaria sob o controle do IV Exército”. A tudo Arraes ouviu calado, com uma postura digna, sem interromper, em nenhum instante, a exposição do comandante do III Distrito Naval. Quando, porém, chegou sua vez de falar, fê-lo pausadamente, como quem ditasse uma proclamação, ciente do momento histórico que estava vivendo. – Senhor almirante. Talvez neste momento eu já seja um prisioneiro do IV Exército. Talvez eu já atravesse a porta deste gabinete preso. Mas nunca os senhores conseguirão que o atual governador de Pernambuco saia desta sala desmoralizado. Eu tenho um mandato que me foi conferido não pelos senhores, mas pelo povo, e que termina numa data certa. Os senhores não me podem tomar essa representação que o povo me conferiu. Poderão, no entanto, impedir-me de exercê-lo, pela força. E acrescentou, solene, com o sobrecenho carregado de emoção: – Enquanto eu for governador de Pernambuco, não aceitarei a menor limitação às minhas prerrogativas constitucionais. Nesse momento, o ambiente era de respeitoso silêncio, todos atentos às palavras do governador, naqueles derradeiros minutos do seu mandato. Então Miguel Arraes arrematou, a voz segura, sem inflexões: – Além disso, eu tenho nove filhos, que precisarão saber no futuro como foi que o pai se comportou nesta hora. À sua vez, Pelópidas Silveira, quando lhe deram ensejo de falar, reafirmou as posições de Arraes: – Eu acho que o governador de Pernambuco está coberto de razão, não podendo aceitar a menor limitação de sua competência. Contudo, estamos diante de uma situação de fato. E essa situação de fato é que, pelo menos aqui em Pernambuco, os senhores são os vencedores e nós os vencidos. E, até hoje, os vencidos nunca tiveram meios de ditar condições aos vencedores. Apenas sugiro que, para evitar derramamento de sangue, em conseqüência do que já está consumado, se estabeleça um modus vivendi entre o governo do Estado e as Forças Armadas: que não se hostilizem, até que a situação se defina no âmbito federal.

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Falando de novo pelos militares, o almirante declarou que aceitava a proposta de Pelópidas, com a ressalva, porém, de que a submeteria ao general Justino Alves Bastos, que a decidiria em última instância. Era quase meio-dia.

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Depois de expor, a pedido de Arraes, toda a situação aos secretários do governo, Pelópidas rumou à prefeitura, ficando o governador do Estado em palácio, com alguns membros de sua família. Às duas horas da tarde, voltaram os coronéis Dutra de Castilho e Ivan Rui, para comunicar que João Goulart não era mais presidente da República, tendo sido deposto pelas Forças Armadas. E – adiantavam os militares – dentro dessa decisão se incluía o afastamento do governador de Pernambuco do seu cargo. Já pelas quatro horas da tarde, foi Arraes preso e conduzido para o 14º. Regimento de Infantaria, de onde o removeram, logo em seguida, para a ilha de Fernando de Noronha. A deposição de Pelópidas ocorreu no dia 2 de abril, depois do almoço. Dois majores, Acióli e Lobo, incumbiram-se de levá-lo, preso, ao QG do IV Exército. Usando o automóvel do seu irmão Pelágio, Pelópidas Silveira e os dois majores chegaram ao QG minutos após, enquanto o edifício da prefeitura era cercado por tropas embaladas. Em vez do general Justino, quem o recebeu foi o general Isaac Nahon, do Estado-Maior do IV Exército. O general Justino constrangeu-se talvez em ser o carcereiro de um homem que, dias antes, almoçara em sua casa, convidado que fora, Pelópidas e sua esposa Marilu, num cartão com o timbre do Exército, com estes dizeres: “Ilustre e digno amigo Dr. Pelópidas. Eu, minha senhora e minha filha ficaremos muito honrados se o senhor nos der a satisfação de vir com sua esposa almoçar em nossa casa”.  

(Texto transcrito do Capítulo XIII (páginas 377 a 383) do livro “O CASO EU CONTO COMO O CASO FOI – Da Coluna Prestes à queda de Arraes”, de Paulo Cavalcanti (CEPE Editora, Recife, PE, 2008 – Volume I, 4ª. edição revista e ampliada)   

 

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