Paulo Cavalcanti, Presente!

Ofélia Cavalcanti

Meus amigos aqui presentes:

         Hoje sou eu quem representa a família: meus três filhos, sete netos e treze bisnetos. E com quase cem anos de vida!

         No momento em que oficialmente sou considerada mais uma brasileira anistiada política, passo a rememorar fases dificílimas que atravessei em nome de um ideal.

         E me lembro de Paulo sempre dizendo que as dores humanas não eram privilégio de nós dois.

         Criamos nossos filhos com dificuldades de toda ordem, inclusive financeira. Para contribuir com as despesas, costurei para fora durante mais de cinquenta anos.

         Jamais me rendi às difíceis imposições da vida. Levei sempre com bom humor as adversidades. E do mesmo modo os obstáculos que encontrei. Quando sentia qualquer iminência de fragilidade, a voz de Paulo afirmava que a resistência humana é infinita.

         Diante desta homenagem que os amigos da Comissão da Verdade fazem ao centenário do nascimento do meu marido, e no momento em que sou reconhecida como anistiada política, vejo que a forma que conduzi minha vida dentro da família e com meus próprios ideais, valeu a pena. Sim, valeu a pena ter esperado quase noventa e oito anos para participar desta grande festa com encontros, reencontros e a grande sensação que é a do reconhecimento público.

         A forma digna com que nos portamos durante essa longa jornada mostrou ter valido a pena enfrentar todos os perigos em busca da igualdade.

         Muito obrigada a todos pelo gesto; pela festa de hoje.

(Pronunciamento de Ofélia Cavalcanti, esposa do escritor Paulo Cavalcanti, em nome da família. Homenagem da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Hélder Câmara em parceria com a OAB – PE e a Comissão Nacional de Anistia do Ministério da Justiça  – Recife, 9 de julho 2015)

Magnólia Cavalcanti



Meus amigos e amigos do meu pai:

         Traduzo aqui o sentimento e a representação da família de Paulo Cavalcanti: de sua viúva, filhos, netos e bisnetos.

         Gostaria de estar, agora, afastada do pieguismo, embora sentindo ser impossível diante de quem, em todos os momentos, foi pai.

         Dentro da família exigiu de si o difícil equilíbrio quanto ao julgamento das pessoas de casa, tanto mais isento e sincero, quanto mais autocrítico, julgando-se a si mesmo.

          Vinte anos depois, constato que meu pai estaria morto se representasse um episódio de cunho meramente individual.

         A mim basta a vaidade de ser filha de um homem cuja biografia pode ser reduzida à frase: “Paulo Cavalcanti, oitenta anos de humanismo”.

         Sobre si mesmo disse certa vez: “Sou um homem que nunca assumiu compromissos com a neutralidade”.

         Meus amigos e amigos do meu pai:

         Deixo aqui expresso e claro que a forma que encontro para agradecer esta homenagem é reconhecendo que houve, por parte do meu pai, méritos para este gesto da União Brasileira de Escritores, Secção de Pernambuco. Como um dos intelectuais que fundaram a UBE, meu pai e outros como Carlos Moreira, Carlos Pena Filho, Audálio Alves, Edmir Domingues, Olímpio Bonald Neto, Lucilo Varejão Filho, Renato Carneiro Campos, elevaram o nome do Estado à semelhança do que ocorrera pouco antes em São Paulo e no Rio de Janeiro.

         Fez ele parte da primeira Diretoria da UBE com seu nome à frente, contando com a presença em outros cargos de nomes dos mais significativos do cenário intelectual daquela época.

         Nos concursos literários instituídos nos gêneros romance, conto, poesia, teatro, ensaio, biografia e crônica, a UBE conseguiu que das comissões julgadoras participassem grandes figuras nacionais como Manuel Bandeira, Joaquim Cardozo, Gilberto Freyre e João Cabral de Melo Neto.

         Delegações foram enviadas a congressos nacionais com teses e propostas para os debates em torno dos problemas ligados à cultura nacional, sua preservação e valorização.

         Dentro de outra realidade, a União Brasileira de Escritores enveredou para caminhos unitários, sem perder os compromissos intelectuais com o povo e com a cultura nacional e popular.

         Quando veio o golpe de 1964, a UBE apareceu no índex das Instituições chamadas perigosas, sobretudo porque meu pai era seu presidente.

         Preso e processado pela justiça militar, depois de solto não reassumiu a presidência dessa entidade. Não tencionava ele transferir a terceiros um ônus político que era só dele.

         Afastou-se sem renunciar até o fim do mandato e durante quase vinte anos morreu a UBE para, em novembro de 1984, um grupo de escritores deliberou o seu ressurgimento.

         Por consenso e em reunião, foi meu pai aclamado seu presidente provisório. Voltou, assim, a UBE às suas origens com Paulo Cavalcanti eleito em janeiro de 1985 em uma chapa de unidade e de luta em defesa da liberdade e da cultura nacional. 

         Hoje, passadas algumas décadas, aqui estamos, juntos, para homenagear os cem anos do seu nascimento.

         Nosso abraço agradecido de admiração pelo talento de Melchiades Montenegro, multiartista, autor da programação visual do selo que homenageia meu pai no centenário do seu nascimento.

         Meus amigos e amigos do meu pai:

         Em nome da família agradeço a Alexandre Santos presidente, à sua diretoria e àqueles que compõem seu corpo administrativo, ao mesmo tempo em que, com emoção, vejo materializada a consagração de denominar de modo acessório a sede desta UBE como Casa  Escritor Paulo Cavalcanti.

         Transformemos nosso momento de saudade num alegre estímulo de termos sido seus amigos.

         Sejamos dignos desse legado.

(Pronunciamento de Magnólia Cavalcanti, segunda filha do Escritor Paulo Cavalcanti. Ato inaugural da CASA ESCRITOR PAULO CAVALCANTI – nova denominação da sede da União Brasileira de Escritores – Seção de Pernambuco (UBE-PE) – Rua Sant’Ana, 202, Casa Forte, Recife, PE –  Julho de 2015)



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