PCB – Partido Comunista Brasileiro

 

PCB – Mudar, sempre. Descaracterizar, jamais

Paulo Cavalcanti

 

        Sou, sem dúvida, um dos mais velhos militantes do Partido Comunista Brasileiro, nesta reunião.

        Como nos longínquos tempos da mocidade, continuo a alimentar-me das crônicas da História, suas lições e ensinamentos – como força motriz das transformações sociais. Mas me nutro também da esperança, nos devaneios dos meus sonhos.

        Venho de uma época em que a idéia do socialismo seduzia a consciência dos homens livres, no vasto horizonte das utopias. Ninguém pode dissociar seus projetos de vida dos sonhos e das utopias. Os melhores instantes da civilização foram sonhados antes de ser executados. A própria luta pela Liberdade foi sempre um projeto de idealidade e ilusões, mais do que um plano de realização.

         O militante político, o pregoeiro de novas idéias, o desbravador de caminhos jamais percorridos foram, antes, o poeta e sonhador, que terminou trocando a sua lira ou suas trovas de cantor pelo instrumento da palavra, nas pregações revolucionárias.

         Daí a evidência de que a inteligência humana não cumpre seus objetivos essenciais, se se mantém insensível à necessidade de operar transformações entre os homens.

         Nos momentos mais íntimos da vida dos reformadores sociais, perpassam instantes de idealismo e fantasia. E então a poesia se introjeta de realidade, nivelando os homens pela esperança.

         Sou dos que nunca se perderam pelo pessimismo, vendo escuridão onde havia somente penumbra.

          Preso político, nos cárceres da ditadura militar, testemunhei, algumas vezes, o abatimento de companheiros que, surpreendidos pelo inimigo, em suas ações de luta clandestina pela Liberdade, se sentiam derrotados, como soldados que houvessem perdido a guerra. Na verdade, esses companheiros haviam perdido apenas uma batalha.

         Eis porque, na hora e na vez em que a prática do socialismo parece naufragar no maremoto de tantos insucessos, resta-nos a convicção de que perdemos apenas algumas batalhas. A guerra, não.

         Quando Galileu foi forçado pela Inquisição a desmentir a teoria de que o sol era o centro do nosso sistema planetário, a ciência viveu um minuto de revés e contrafação, mas não perdeu a evidência de sua verdade.  Antes, na tragédia do Gólgota, quando o Cristo dos católicos morreu, sob a tortura da crucificação, o sentimento religioso dos que nele acreditavam não diminuiu a intensidade de sua fé.

         Vivemos, neste fim de milênio, uma crise da consciência socialista. E alguém já disse: só quem não vive esta crise é aquele que não é socialista, ou não tem consciência.

         Se atentarmos para os exemplos do que se passou com outras ideologias, verificaremos que esta crise não é o fim de uma doutrina, antes o começo de sua reformulação.

         Pensávamos que, implantando o socialismo, um tanto mecanicamente, logo se modificaria a mentalidade dos homens, como nos sugeriam, em lições mal aprendidas, velhos compêndios do marxismo.

         No chamado “socialismo real”, que infelizmente não foi nem socialismo, nem real, a história provou que a busca da igualdade – a igualdade social e política, a igualdade de acesso à cultura e à saúde, a igualdade nas oportunidades – não era tudo na vida. Faltava o essencial, que é a Liberdade do homem, suas opções e preferências, sem o que não se poderia construir uma sociedade democrática e pluralista.

         O fracasso dos países socialistas do Leste Europeu não é o “paraíso perdido” do ideário que o homem alimenta desde Marx. A busca do céu é pontilhada de malogros. E a caminhada para a vitória não tem o traçado retilíneo da Avenida Nevsky, como nos lembra Lênin.

         A idéia socialista, que foi sonho, que chegou a ser projeto de realização, hoje se apresenta como um pesadelo para todos nós. Mas não confundamos o insucesso do “socialismo real” com a doutrina marxista, que há de resistir aos vendavais da História.

         O dogmatismo, a estreiteza na prática do sistema, as restrições à liberdade individual, o coletivismo sem base na realidade, a apropriação da propriedade privada, sem etapas ou até recuos táticos, por si sós, não implicariam mudanças na consciência dos homens, a não ser para atrasar o modelo socialista imaginado. Aplicado como dogma, como fatalidade histórica, o “socialismo real” desnaturou a beleza das teses marxistas, transfigurando-as em tragédia. O planejamento econômico não exclui a economia de mercado.

         Essa dicotomia, que as massas populares insurretas sepultaram nos escombros do Muro de Berlim, não tem a tristeza das cinzas de um velório. É, mais que isso, o alvorecer de um novo modelo de competitividade, dentro de uma pluralidade, de opções.

         O que nos diferencia do capitalismo é que nós, socialistas, prometemos soluções para os problemas do homem, como acentuou o camarada José Saramago, do Partido Comunista Português. E, quando fracassamos,

frustramos as consciências. O capitalismo, ao contrário, não promete. Não promete nada, fora dos projetos individualistas. E, por não prometer, não frustra as consciências, exatamente porque não promete.

         No salve-se quem puder da emulação capitalista, cada um cuida de si. O individualismo é a marca de sua doutrina. Nós fazemos do amor e da solidariedade o horizonte que buscamos para a convivência entre os homens. Nessa busca pela melhoria da vida, perdemo-nos pelos atalhos. Mas não nos perdemos pela má fé. Perdemo-nos pela imprevidência. E quem erra pela imprevidência, não merece o purgatório dos irremediáveis.

         Neste dia de reencontro com velhos camaradas e na iniciação de novas amizades com bons aliados, faço a minha profissão de fé. Persistência nas idéias não é fanatismo. Nem coerência de atitudes é sinal de inamovibilidade de pensamento.   

         Sou pela continuação do nome e dos símbolos do Partido Comunista Brasileiro, mas também por sua profunda renovação.

         Assim como o barrete frígio, da figura da República, é a marca histórica de suas lutas, malgrado o sistema republicano tenha convivido com as ditaduras, assim como a cruz de Cristo desafia os tempos, como sinal de uma religião que, em dois mil anos de projetos de bondade entre os homens, conheceu séculos de impiedade e inquisição; assim como a Estrela de David é signo é o signo eterno do judaísmo, do judaísmo padecente dos campos de concentração nazistas, mas também do sionismo intolerante que nega aos palestinos o direito a uma pátria; assim,  a foice e o martelo representam, historicamente, as gloriosas lutas do proletariado e do campesinato por sua libertação, desde o século XIX.

         O problema dos símbolos não é tão secundário assim. O símbolo, como o mito, se incorpora ao inconsciente coletivo, associando-o a idéias. Um lembra o outro, gerando efeitos quase pedagógicos.

          Bertolt Brecht reivindicava um mundo que não precisasse nem de heróis, nem de mártires. Hoje, desgraçadamente, ainda nos alimentamos de ambos.

         Não devemos subjugar os símbolos ao esoterismo de fórmulas misteriosas.  Freud e Pavlov estudaram a questão da idealidade dos símbolos, e os justificaram, como fenômenos da mente humana.

         Quando um objeto, ou um símbolo, se incorpora a uma idéia, transforma-se em objeto mágico. Com isso, ganha uma força especial de mobilização.

         A partir de certa fase da 2ª Grande Guerra, as grandes batalhas da Europa, da Ásia e da África se travavam entre a cruz suástica do nazismo e a bandeira com a foice e o martelo do socialismo. A cruz de Lorena, de De Gaulle, incentivou os “partisans” franceses, na guerra de guerrilha.

         Não se pode negar a influência da Marselhesa e do hino da Internacional Comunista nas lutas revolucionárias da História, como estímulo de burgueses e proletários, em suas lutas sociais. O conteúdo de suas letras foi ultrapassado pelo tempo. Mas os símbolos, que são também os hinos, permanecem na memória dos homens.

         Vivemos uma época que um filósofo classificou de “civilização da imagem”.

         Na derrocada do sistema colonialista, nas grandes pelejas sustentadas pela classe operária em defesa de suas reivindicações e até de sua libertação, a foice e o martelo estiveram presentes.

         O que nos conforta é a grandeza da nossa autocrítica, no reconhecimento dos nossos erros. E até dos crimes cometidos em nome do socialismo.

         Vão-se esses erros e esses crimes.

         Menos os símbolos.    

 

(Discurso pronunciado por Paulo Cavalcanti no dia 19/04/1991, na Assembléia Legislativa de Pernambuco, quando da sessão solene de abertura da Conferência Nacional do Partido Comunista Brasileiro. Publicado no livro Vale a pena (ainda) ser comunista, de Paulo Cavalcanti –  Gráfica Editora Inojosa, Recife-PE,1991. Reeditado no livro Homens e Ideias do Meu Tempo, de Paulo Cavalcanti – Nordestal Editora, Recife –PE, 1993.)

 

 

 

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