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Capa da 3ª. edição do livro publicada, no ano de 1983, pela Editora Guararapes  (Recife – PE)

 

 

 

EÇA DE QUEIROZ, AGITADOR NO BRASIL

 

Com três edições esgotadas – duas no Brasil, uma em Portugal – convenço-me, hoje, de que este livro trouxe à luz, pela primeira vez, aspectos inteiramente inéditos das relações de Eça de Queiroz com os brasileiros, embora de um ângulo de azeda inamistosidade. A crítica e o depoimento de historiadores, tanto lá como aqui, unanimemente o comprovam. Com centenas de livros publicados a seu respeito, além de milhares de artigos em revistas e jornais de língua portuguesa, ninguém podia supor que velhos arquivos pernambucanos, remexidos por mim durante mais de dez anos de paciente pesquisa, revelassem ao vasto universo de leitores e admiradores de Eça um acervo de interessantes novidades em torno da sua vida e da sua obra, no curso de uma polêmica havida entre o futuro autor de Os Maias e personalidades brasileiras, por causa da passagem do Imperador Pedro II por terras lusitanas.

Naquela época, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, jovens, dirigiam As Farpas, mensário de crítica de costumes, em cujas páginas a figura do imperador foi glosada com humor e zombaria.

       A história desse incidente é contada aqui com abundância de pormenores, salvando do  esquecimento um episódio que, sobre ser chistoso, não deixou de ter também seus momentos de tragédia.

       Esse hiato de adversidade, felizmente, não impediu, no futuro, o amor, quase a idolatria, dos pernambucanos e dos brasileiros ao criador do conselheiro Acácio, esquecidas as pasquinadas do tempo de revista lisboeta.

       Quando o ecianismo parecia amortecido, eis que A Tragédia da Rua das Flores, romance de Eça publicado em 1980, em versão absolutamente original, fez reavivar a admiração pelo escritor, agregando novas legiões de leitores aos velhos eçólatras  dos tempos de O Crime do Padre Amaro.

         Poucos anos antes, em breves intervalos, novos estudos de autores brasileiros renovavam o culto a Eça: Viagem ao Portugual de Eça de Queiroz (1971), de Paulo Malta Ferraz, Eça e o Brasil (1977), de Arnaldo Faro, e Dicionário de Tipos e Personagens de Eça de Queiroz (1977), de Paulo de Medeiros e Albuquerque. Prosseguia, assim, a sequência de livros sobre o autor de O Primo Basílio, de autoria de brasileiros, a enriquecer a bibliografia queiroziana iniciada com brilhantismo por José Maria Belo, Álvares Lins, Viana Moog, Clóvis Ramalhete, Constantino Paleólogo e Heitor Lyra, e de que o livro Eça de Queiroz, a Obra e o Homem, de Miguel Melo, editado em 1911, foi pioneiro, tanto aqui, como em Portugual. Essa obra de Miguel Melo, premiada à época pela Academia Brasileira de Letras à vista de parecer de Sílvio Romero, é, hoje, uma preciosidade bibliográfica. O seu pioneirismo se patenteia não somente em função da primeira sobre os estudos de críticos e historiadores portugueses, como pela seriedade de suas análises e interpretações, num volume de 228 páginas, a que não faltaram algumas cartas inéditas de Eça, em anexo.

A moderna literatura de língua portuguesa muito deve a Eça de Queiroz, que rompeu com os padrões do convencionalismo, no estilo, e inovou, na forma, as estruturas do idioma, aproximando a língua literária da língua coloquial, falada.

       Ninguém, nenhum intelectual, das gerações que se formaram no Brasil, a partir do início do século, ficou imune à sua influência. E quando, nos dias de hoje, fazemos uso de certas expressões, falando ou escrevendo, não nos damos conta de que elas foram utilizadas pela primeira vez por Eça de Queiroz, que transformou a língua oral na fonte idiomática de sua revolucionária maneira de escrever. Substantivos como “faiscação”, “badalação”, “verborréia”, “insinuância”, “obtusidade”, “rigideza”; neologismos morfológicos como “mesmice”, “lambisgonhice”, “padraria”, “gordalhufo”, “espanholesco”, “chuviscoso”, “bigodoso”, “santanífero”, “conselheiral”, “pensadoiro”; verbos como “degringolar”, “cuspilhar”, “tossicar”, “psicologar”, “embasbacar”, “empratileirar”, “pacientar”, “burocratizar”; advérbios de modo como “transbordantemente”,“animalmente”,“catedraticamente”,“montanhosamente”,”escancaradamente”, “negramente”, “palidamente”; diminutivos como “politicote”, “adulteriozinho”,“tumulozinho”,“descrençazinha”, “exalta-çãozinha”, “excessozinho” – encheram as páginas dos seus romances, proporcionando ao idioma português, rico mas enferrujado, uma nova forma de expressão mais esteticamente adequada à percepção dos sentimentos humanos.

         Ninguém sabe, a essa altura, que o verbo entrevistar foi inventado por Eça de Queiroz, a partir do inglês “interview”, numa página de humor em que acusava sarcasticamente “os nossos idiomas neolatinos” de “não estarem preparados, na sua nobre pobreza, a acompanhar todas as ruidosas invenções do engenho anglo-saxônico”. E, por isso, fazia um apelo aos brasileiros, que “possuem a arte sutil de cunhar vocábulos que são por vezes geniais”, no sentido de “fabricar” um sucedâneo para o “interviarwar”, se não aceitassem a sua idéia do neologismo entrevistar.

         Expressões de sabor popular, como “Ora sebo!”, “Venha de lá esse abraço!”, “Venham de lá esses ossos !”,  “De arromba!”, “Sossega, leão!”, o romancista as criou, inovadoramente, como recurso à necessidade de harmonizar a forma e o conteúdo no pitoresco da frase.

         Os dicionários de hoje consagram quase todos esses modismos da prosa eciana, incorporando-os definitivamente à língua.

         Na sua expressividade imagística, o que ele buscava era a identificação do conteúdo com a forma, no seu imenso poder de apreensão da fugacidade instantânea do transitório. Com um extraordinário senso de percepção, fixava aí os parâmetros do eterno, como flagrante de uma situação psicológica.

         Numa carta a Jaime Batalha Reis, seu amigo, Eça se queixava dos atropelos da língua portuguesa, sob os rigores do convencionalismo da forma: “Estou escrevendo a vida diabólica e milagrosa de São Frei Gil. E, por sinal, dir-to-ei agora aqui, quando justamente nos achamos sob os arvoredos – que a nossa riquíssima língua portuguesa me parece deficiente em cores com que se pintam selvas.”

         Eça de Queiroz é um escritor mais para ser ouvido do que para ser lido. A cadência da narração nele é quase uma pauta musical, espontânea e sonora, com as palavras dispostas metrificadamente em sua dimensão na frase, sem quebra do sentido de qualidade da expressão. O curso da composição lhe chega a ritmos de compasso, num boleio de gostosa oralidade, as palavras criando cores e semitons, claros-escuros e meias-tintas, ampliando os horizontes da língua.

         Ele mesmo, falando através de Carlos Maia, no romance célebre, traçou a caricatura do seu próprio perfil: “Há seres inferiores, para quem a sonoridade de um adjetivo é mais importante que a exatidão de um sistema. Eu sou um desses monstros!”

         Posto de lado o exagero, “a revolução de Eça – como observou Euryalo Cannabrava – rompeu os padrões uniformes e homogêneos da estilística linear. Abriu brecha funda nas convenções, tornando a língua portuguesa flexível e maleável, como argila de vaso.”

         Daí por que – como acentuou Ernesto Guerra Da Cal, sem dúvida nenhuma o melhor analista da sua linguagem e do seu estilo – “a crítica e o público o proclamam como um dos clássicos da literatura universal”.

         Nem sempre, porém, o culto a Eça de Queiroz foi uniforme e geral em terras brasileiras. Pelo menos em Pernambuco, no último quartel do Século XIX, seu nome chegou a ser pronunciado entre verberações de protesto e ódio.   

         A reedição deste livro, passados quase vinte e cinco anos do seu primeiro lançamento, surge em tempo oportuno, quando o riso e a gargalhada representam, ao lado de punhos cerrados e medonhos sobrecenhos, formas variadas de luta contra a mesmice de instituições ultrapassadas e bolorentas.

Recife, novembro de 1983

 PAULO CAVALCANTI

 

(Transcrição do Prefácio à Terceira Edição, publicado no livro EÇA DE QUEIROZ, AGITADOR NO BRASIL, de Paulo Cavalcanti – Editora Guararapes, Recife – PE, 1983, 3ª. edição revista e aumentada).

 

 

 

 

 

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